Nevoeiro lá fora. Luzinhas piscando. A janelinha era pequena, mas mostrava a paisagem do terror. Noite fria em Porto Alegre. Muita chuva e cerração. “Senhores passageiros, vamos sobrevoar por pelo menos 30 minutos a cidade de Porto Alegre, pois o aeroporto se encontra fechado. Mau tempo. Solicitamos que apertem os cintos pela zona de turbulência.” O suor das mãos, os olhos ardendo e o peso no estômago denunciavam meu pavor. Ainda bem que a Beta estava ali. Ia morrer ao lado da minha prima. Um mês de intensas vivências precisaria tanto ser contado, recontado, mostrado em fotos e vídeos. Tanto a dizer, a expressar! Trinta minutos. Trinta minutos.
Pingos de chuva alemães. A janelinha era pequena e a vida dos pingos de chuva também. Aeroporto de Munique. Estaremos decolando em 30 minutos. Alegria. Conexão para Londres. Enfim no solo do Velho Mundo. Como serão as cidades? Figuras dos livros de geografia. Garganta apertada. Nunca achei que o Big Ben fosse tão no meio da rua. As casinhas de telefone e os ônibus de dois andares existem! Liberdade! Metrô. Vida cosmopolita no centro cosmopolita. Devemos acordar cedo no outro dia, pois a excursão parte às seis da manhã. E o grupo não espera. Quarenta e oito jovens, de 18 a 35 anos dentro de um ônibus. Nunca nos vimos antes. Gente da Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Estados Unidos, Irlanda, África do Sul e nós: Brasil. O que esperar? Difícil explicar o misto de sensações que se revelavam dentro de mim. Sabia que por 27 dias estaria entrando num mundo paralelo, num universo que sim, seria real, mas que teria um ‘Quê’ de roteiro de filme.
Vias espaçosas. Estradas suaves. A janela do ônibus era grande, de vidro, sem divisórias. Dava pra ver o chão da estrada e o céu europeu sem movimentar o olho. O pôr-do-sol em Paris foi incrível. “No, woman don’t cry.” A música do violão daquele moreno no morro da Sacre Coeur me ajudou a perceber o quão grandioso é viver outras atmosferas, outras realidades. As gotas suaves que partiam dos meus olhos ajudaram a compor o cenário de pintura com trilha sonora.
Pés doendo. Bolhas. Muitos destinos ainda, mas pouco tempo. Sentimos a vibração litorânea de Barcelona e vimos o luxo de Nice e Mônaco. O janelão do ônibus era a tela por onde passavam montanhas, árvores, lagos, pequenos vilarejos medievais. Estávamos cruzando a Europa. A linha do tempo começou a regredir. Era a vez da Itália. Muita gente fazendo pose pra foto na torre de Pisa.
O chão por onde andei em Florença é o mesmo que Michelangelo e Da Vinci passaram. Suas obras e de tantos outros ainda estão lá, intactas. Foi o Renascimento renascendo pra mim. Em Roma pude compreender nossa pequenez frente à magnitude da eterna História. Estamos de passagem: vemos, ouvimos, sentimos e tiramos nossas impressões. É tudo efemeridade.
Mais estrada. Risadas, sono, piadas, cartas, fotos. Tudo ao mesmo tempo. Sobe e desce do ônibus. Abre mala, fecha mala, arruma, revisa o quarto. Cantar músicas espanholas na grama da pousada em Veneza, dormir no sereno depois da festa. Tudo ao mesmo tempo.
O limite entre o real e o cinematográfico nunca fora tão tênue. A neve no topo dos Alpes, a grama verde, as vaquinhas com sino no pescoço desfilando formavam o cenário de um sonho. E tudo pela janelinha do trem. Muito balanço e muito frio. Era Suíça.
O destino final era Amsterdam. O caminho era longo. Mas eu não queria chegar: medo da efemeridade. O paraíso, me disseram, é eterno. Costeamos o Reno, passando por vários vilarejos alemães. Mais pôr-do-sol.
Eu quero morar aqui! Eu quero andar de bicicleta e ter uma casa-barco. A janelinha era pequena e não dava pra ver muita coisa. A fumaça enchia o ar abafado do bar e atrapalhava a visão pra fora. Só dava pra enxergar vultos passando lá fora, na peculiar noite holandesa.
Despedida. Estávamos no chão. Os olhos cheios d’água ainda deixavam ver rostinhos e acenos tristes pela janela, lá dentro do ônibus. A excursão retornou para Londres e nós seguimos para Hamburgo, na Alemanha. Três ensolarados dias com nossa tia na cidade do Elba.
Muito sono e frio. Trinta minutos. Cerração. “Tripulação preparar para pouso”. Sim, tudo voltaria ao normal. Depois de eternos minutos de angústia e pânico, enfim desceríamos juntas do avião. Chegamos. Poderíamos abraçar, contar, festejar. Voltar pra casa e redescobrir o ninho, “reentender” a aldeia.
por Maria Elisa Swarowski Lisboa